“Previsões geralmente nos dizem mais sobre quem fez a previsão do que da previsão em si.”
Warren Buffett – Bilionário. Filantropo e Investidor Americano
Certa vez fui para uma reunião, já era noite, estava numa cidade no interior do país e estava cansado de um dia lotado de reuniões e compromissos.
Quem me levou lá, foi um intermediário, que inclusive sabia vender muito bem o projeto. Da forma como ele falava, parecia que eu estava próximo a conhecer a Nova Microsoft do milênio.
Eu cheguei para a reunião no horário combinado, pontualmente, o responsável pelo projeto chegou 30 minutos depois. Certamente a agenda dele é mais importante do que a minha.
Ele começou a apresentar, parecia um projeto bem estruturado e com boas referências, uma grande consultoria internacional havia feito.
Tratava-se de uma concessão, que iria sair, para que a empresa assumisse um destes elefantes brancos que a Copa deixou. O empresário que “ganhasse”, poderia desenvolver toda a parte de entretenimento como shows, campeonatos, construir academias, cafés, espaços para escritórios.
Quando estava próximo de apresentar a parte financeira, ele teve que atender o telefone, era uma repórter de uma TV Local. Pelo que entendi da ligação, ele estava usando a mídia para atacar possíveis concorrentes no projeto.
Neste momento eu pensei, se ele age tão maquiavelicamente com um concorrente, o que ele não fará quando receber este investimento? Se a intenção dele era mostrar que tinha poder sobre o que estava acontecendo não surtiu resultado, na verdade me deixou inseguro, de pensar quais conchavos políticos poderiam estar existindo nos bastidores.
Regra 1: não colocar dinheiro limpo e honrado em negócios escusos. Dinheiro não cai do céu!
Então, ele entrou na parte financeira, as projeções eram bastante otimistas, com demandas bem interessantes, entretanto, as previsões eram todas baseadas em “achismos”, nem sequer havia sido feito pesquisa de mercado, apenas projeções financeiras. Neste momento eu pensei: como é fácil utilizar dinheiro dos outros para aplicar em algo incerto.
Regra 2: as projeções demonstram exatamente quão megalomaníaco é o dono do projeto.
Para finalizar, eu perguntei qual seria a proposta ao investidor, foi a gota d’água – Ele disse que daria 20% por USD 10 milhões – e este era 100% do investimento, além disto, ele escolheria todas as diretorias e assumiria a presidência.
Por um momento eu achei que ele estava brincando comigo, não podia acreditar a falta de carinho pelo meu dinheiro que ele estava tendo. Como diria Machado de Assis: “Suporta- se com muita paciência a dor do fígado alheio.”
Se o responsável pelo projeto está querendo o seu dinheiro, e não sabe que ele foi ganho a duras penas, que este é um bem escasso e que na lei da oferta e demanda, o capital sempre vale mais, é melhor levantar-se e ir embora.
Aliás, ele não tinha nenhuma experiência na área de entretenimento, a carreira tinha sido construída toda na área de consultoria e auditoria. Despedi-me e nunca mais o vi!
Regra 3: Se o projeto for medíocre, mas o time e o responsável forem de alto potencial, invista tempo e capital para direciona-los.
O sucesso de um negócio é o objetivo mais desejado dos empresários. O problema é que sempre chega um momento em que a barreira do crescimento aparece. Seja por falta de capital de giro ou infraestrutura, uma hora será preciso conseguir investimento e é preciso estar preparado para isso.
Também, se a empresa já for grande, e não estiver precisando de capital externo, trate todo investimento como sendo um novo projeto, faça as análises financeiras e compare os retornos aos atingidos no mercado de ações. Capitalizar o capital próprio é até mais importante que faze-lo ao capital de terceiros.
Além disto, é importante que o empreendedor não veja os fundos como uma solução para problemas de crédito. Eles precisam ser vistos como uma solução para o crescimento.
Os riscos de problemas para o empresário e para o investidor aumentam quando a diluição do capital da empresa é muito grande para se iniciar o aporte. No mercado, a tendência em média é ceder de 15% a 30% do negócio.
Roberto Campos, um economista brasileiro, que eu sempre admirei muito, escreveu em seu livro, A Lanterna na Popa: “O empresário brasileiro prefere dividir o lucro com os bancos a dividir o risco com investidores capitalistas.”
Ou seja, se você está disposto a compartilhar o risco e retorno da sua empresa ou de algum projeto interno, esteja preparado.
As empresas interessadas em receber aportes financeiros devem manter seus balanços auditáveis ou já auditados. Essa linha de controle financeiro valoriza a empresa e facilita a comunicação entre os dois lados. Assim, o empresário tem mais garantia de que o valor sugerido no início da negociação não irá mudar até o final do processo, que dura normalmente de quatro a cinco meses.
Além do controle financeiro confiável, o empresário que apresenta um plano de expansão específico para o fundo desejado também tem vantagem. Um projeto claro de como a estrutura da empresa está preparada para crescer com o fundo de investimento tem impacto direto no valor da empresa e nas condições da negociação.
Demonstrar capacidade de adaptação também é uma característica muito valiosa na hora de buscar investimento. Isso porque, com a participação da gestora, propostas de mudanças são comuns, e é preciso que o empreendedor seja receptivo a elas. É claro que, no começo da empresa, o empresário teve que ser centralizador para manter sua liderança, mas, se continuar assim, ele esbarra na barreira do crescimento. Ele precisa entender que, por conta da sua estrutura e capacidade, não tem como crescer sozinho.
Por outro lado, não é porque o empresário está suscetível a modificações que ele precisa ter uma atuação passiva em sua empresa. É preciso que ele sempre questione o que será feito. E não acredite em milagres, o investimento virá junto com bastante trabalho a ser feito.
Faça a prosperidade acontecer!
Yossi Harel, Administrador de Empresas, Pós-Graduado em Finanças Corporativas pela UNICAMP, Gestão Empresarial e Gestão de Recursos Humanos pela FGV e Gestão com Responsabilidade Social pela USP