“Hay que ver Asuncion y sus diez y seis teléfonos.”
Piada corrente na época sobre a pobreza de infraestrutura do Paraguai
Neste Blog estamos estudando e comentando o livro A LANTERNA NA POPA deste gênio da economia brasileira: Roberto Campos.
A LANTERNA NA POPA conta a história dos bastidores do poder. Roberto Campos nos passa a visão das decisões que iam sendo tomadas, e para onde o Brasil ia se direcionando.
Neste capítulo: Peripécias de um Criptógrafo, Roberto conta o novo posto que assume e o interesse por criptografia para uso nas relações internacionais. É muito interessante a visão que traz de outros países da América Latina, a luta do Brasil da época contra o comunismo e a tecnologia ultrapassada no Brasil na criptografia.
Depois o almoxarifado, Roberto Campos procurou emigrar para outras atividades. A primeira oportunidade que se abriu foi na seção de Criptografia. O Itamaraty na época estava no processo de elaboração de novos códigos. Um deles, o chamado código vermelho ou ordinário, estava sendo impresso, sob grande sigilo, na Casa da Moeda. Precisava-se de vítimas para acompanhar a impressão. Lá foi ele para esta nova aventura nos bastidores do país.
Subproduto interessante segundo ele foi que se dedicou a estudos da criptologia. Limitou-se a um dos aspectos, a criptografia, sem avançar na criptoanálise, ou seja, a decifração de códigos, arte em que o Itamaraty nunca foi forte.
Depois, as coisas melhoraram, e de simples supervisor de impressão ele passou a colaborador de João Batista Soares de Pina, ajudando a fazer os códigos dicionários.
_ Naquele tempo, a criptografia no Brasil, ou pelo menos no Itamaraty, estava longe de atingir o nível extremamente sofisticado da criptologia militar das grandes potências às vésperas da II Guerra Mundial. _
Soares de Pina, um dos grandes boêmios da vida carioca, tinha uma imaginação criadora para a construção de códigos. Amava o ambiente secreto e conspiratório.
Segundo Campos, posteriormente ele veio a tornar-se parte do folclore nacional. Estava servindo, em 1947, na embaixada do Brasil em Moscou. Atribuía-se nossa ruptura de relações com a União Soviética, ao episódio da detenção, pela política soviética, do Soares de Pina, que, embebedado, se envolvera, numa rixa com o gerente do restaurante do Hotel Nacional em Moscou, onde estava temporariamente alojada a embaixada.
Na verdade, a motivação para ruptura não foi esta. Além da hostilidade visceral do presidente Dutra ao comunismo, e do receio das atividades subversivas do regime soviético, que culminaram na cassação do Partido Comunista Brasileiro em 1947, o periódico moscovita Literaturnaya Gazeta publicara um ataque às Forças Armadas Brasileiras e ao presidente Dutra. E o governo soviético devolveu nossa nota de protesto. Além disto, os delegados soviéticos na Assembleia Geral da ONU, em 1947, fizeram declarações extremamente violentas contra Oswaldo Aranha, então presidente da Assembleia, e contra o governo brasileiro. Aranha pensou inclusive em renunciar à presidência da Assembleia, no que foi desencorajado pelo então ministro do Exterior, Raul Fernandes. Entretanto mesmo Oswaldo Aranha se opusesse ao gesto final de ruptura, nossas relações diplomáticas com a União Soviética foram suspensas em 22 de outubro de 1947.
Recordando-se das suas peripécias criptográficas, Campos verificou que o nosso grau de sofisticação era mínimo. E imagina que a decifração das comunicações do Itamaraty não apresentasse qualquer desafio relevante à elevada tecnologia que se vinha tornando disponível. Àquela época, antes da II Guerra Mundial, os alemães haviam fabricado a famosa máquina Enigma, que depois viria a ser decifrada pelos ingleses, com cooperação polonesa, graças principalmente aos trabalhos matemáticos de Alan Mathison Turing, inventor da máquina Turing. Ele foi um dos precursores da computação digital e das pesquisas sobre “inteligência artificial”.
Roberto Campos continua contando sobre a criptografia no mundo, e diz que a esse tempo os japoneses já dispunham de sua sofisticada máquina de codificação, a Purple, para mensagens diplomáticas, cuja decifração permitiu aos americanos significativas vitórias no Pacífico, inclusive a derrubada do avião que conduzia o almirante Yamamoto[1]. Descodificara-se uma mensagem japonesa que anunciava sua visita às ilhas Salomão.
Os americanos conseguiram pôr em operação uma máquina extremamente eficiente, a Sighaba, que por longo tempo desafiou todos os esforços de decifração pelos alemães.
Eles não sabiam aquela época no Itamaraty quão artesanal e primitivo era nosso esforço, comparativamente a esses desenvolvimentos tecnológicos. O orgulho de Campos com os novos códigos era infindo e infundado, dizia ele.
Quarenta anos depois, como embaixador em Londres, ele verificou que pouco havíamos progredido tecnologicamente. Entretanto as máquinas frequentemente transmitiam mensagens erradas, particularmente ao se intensificarem as comunicações entre Brasília e Londres, durante o conflito das Malvinas[2], quando o Brasil representava os interesses argentinos na capital inglesa.
Terminando o trabalho de impressão dos códigos, veio a modesta recompensa. Ao invés de ser designado correio diplomático para entrega dos códigos na Europa ou Estados Unidos, prêmio designado a outros membros da turma, a missão de Campos era entregá-los em Montevidéu, Buenos Aires e Assunção.
A carência de transportes superou o medo. Ele embarcou para Montevidéu num cargueiro frigorífico norueguês, pintado de branco, com mar bravo e um blackout ineficaz, em noite de luar.
Nesta viagem, Campos pode descrever como estava economicamente os países latinos.
Segundo ele, a vida teatral em Buenos Aires era intensa e de alto nível. As temporadas de ópera no Teatro Colón atraiam os maiores cantores da Europa e a vida teatral era rica e diversificada. Seria impossível acreditar que depois da guerra, com a ascendência do peronismo[3], a opulência argentina cederia lugar a uma prolongada estagnação. Não se podia sequer imaginar que aquele país aparentemente desenvolvido, a sétima renda mundial por habitante, estivesse prestes a iniciar uma longa marcha para o subdesenvolvimento.
Os códigos sob a responsabilidade dele, foram entregues por último em Assunção, aonde ele chegou de navio fluvial, após quatro ou cinco dias rio acima, no Paraná e no Paraguai. Na pacata Assunção, a sensação que ele teve foi de estagnação, contrastando vivamente com o progresso argentino. A cidade se orgulhava da recente instalação das linhas telefônicas, demonstrando assim o atraso daquele país.
Pelo visto, os países da América Latina têm dificuldade de tornar-se melhores economicamente, desde daquela época.
Assim termina o terceiro capítulo desta obra prima: A lanterna na POPA, que contaremos resumidamente neste Blog, poderemos comparar com o momento atual do país, chegarmos a conclusão de que a história é cíclica, e evolui somente quando nossos líderes vencem a inércia da ignorância sistêmica coletiva.
Faça a prosperidade acontecer!
[1] Isoroku Yamamoto foi um importante almirante japonês que criou os planos de ataque a Pearl Harbor, durante a Segunda Guerra Mundial.
[2] A Guerra das Malvinas foi um conflito armado entre a Argentina e o Reino Unido ocorrido nas Ilhas Malvinas pela soberania sobre estes arquipélagos reivindicados em 1833 e dominados a partir de então pelo Reino Unido. Porém, a Argentina reclamou como parte integral e indivisível de seu território, considerando que elas encontram “ocupadas ilegalmente por uma potência invasora” e as incluem como partes da província da Terra do Fogo, Antártica e Ilhas do Atlântico Sul.
O saldo final da guerra foi a recuperação do arquipélago pelo Reino Unido e a morte de 649 soldados argentinos, 255 britânicos e 3 civis das ilhas. Na Argentina, a derrota no conflito fortaleceu a queda da Junta militar que governava o país e que havia sucedido as outras juntas militares instaladas através do golpe de Estado de 1976 e a restauração da democracia como forma de governo. Por outro lado, no Reino Unido, a vitória no confronto permitiu ao governo conservador de Margaret Thatcher obter a vitória nas eleições de 1983.
[3] Peronismo é a denominação dada genericamente ao “Movimento Nacional Justicialista”, criado e liderado a partir do pensamento de Juan Domingo Perón, militar e estadista argentino, presidente daquele país, eleito em 1946, 1951 e 1973 e que influenciou a política norte-americana.
Yossi Harel, Administrador de Empresas, Pós-Graduado em Finanças Corporativas pela UNICAMP, Gestão Empresarial e Gestão de Recursos Humanos pela FGV e Gestão com Responsabilidade Social pela USP