“É que gosto de mesmo de admirar. Além do que, é mais fácil admirar o próximo do que amá-lo.”
Guimarães Rosa
Neste Blog estamos estudando e comentando o livro A LANTERNA NA POPA deste gênio da economia brasileira: Roberto Campos.
A LANTERNA NA POPA conta a história dos bastidores do poder, e o Roberto Campos nos passa a visão das decisões que iam sendo tomadas, e para onde o Brasil ia se direcionando.
Neste capítulo “Os patinhos feios”, Roberto conta o primeiro posto de trabalho que teve no Itamaraty, almoxarife.
Os patinhos feios da turma que passaram no concurso eram Roberto Campos e Júlio Agostinho de Oliveira. Este último, foi criado em família positivista, tinha bastante conhecimento mas, assim como Roberto, carência de títulos formais.
O mais grave é que os dois não conheciam ninguém no Itamaraty, o famoso “quem indica”, enquanto o restante dos colegas que haviam passado no concurso ou eram repetentes ou tinham ligações de parentesco ou amizade com o pessoal da casa. Foram todos eles assim requisitados para os diferentes departamentos mais nobres – o Político, Jurídico e o Cultural. Não tendo sido os trabalhos deles solicitado por ninguém, foram designados à Divisão de Materiais, ou seja, o almoxarifado. Tratava-se de óbvia sub-ocupação dos talentos que tinham. Eles se dedicaram a construir um sistema sofisticado de controle de custo de material, com enorme esbanjamento de gráficos e projeções estatísticas. Com isto, o Itamaraty teve um almoxarifado de luxo.
Na Divisão de Material trabalhava uma figura interessante, que se chamava Luiz Felipe de Florambel Beaurepaire-Rohan. Tratava-se de um louco manso e encantador, segundo Campos.
Disse para ele certa vez o Florambel que iria propor ao então ministro Gudin[1], um grande empréstimo canadense (pelo qual receberia importante comissão) que iria permitir ao Gudin tonar o cruzeiro[2] uma moeda importável, exportável e comportável. E neste momento usa do seu sarcasmo erudito para fazer uma crítica a moeda, e diz: “Infelizmente, não pode levar seu propósito adiante, e a moeda brasileira continuou pouco comportável.”
Um acidente feliz, segundo Campos, foi encontrar Guimarães Rosa que, já designado para o Consulado em Hamburgo, frequentava ao lado da Divisão de Material a Divisão de Pessoal. Diz ele que, Guimarães Rosa interessou-se por ele, por ser ex-seminarista e latinista. Quando ele o conheceu no Itamaraty, dizia-se um “fabulista mercenário”, pois publicara aos vinte anos alguns contos “não por amor à arte mas por amor ao dinheiro.”
Grande sertão: Veredas foi uma obra-prima de engenharia semântica, revelando Guimarães Rosa incrível habilidade para transformar o cotidiano em lenda. Rosa dizia: “Sou médico, rebelde e soldado.” Durante a revolução constitucionalista de 1932 foi voluntário para serviços médicos no setor do túnel, onde também se encontrava o urologista Juscelino Kubitschek[3].
Neste capítulo, Campos disse que com uma extraordinária capacidade de nossa burocracia diplomática de desperdiçar talentos. Guimarães Rosa ficou bastante tempo no obscuro Serviço de Demarcação de Fronteiras. Este comentário parece bastante atual, para um país que privilegia a mediocridade à competência, inteligência e eficiência.
Campos finaliza o capítulo, falando sobre como se sentiu com a moral elevada, quando Guimarães Rosa elogiou um relatório que ele enviou a Washington sobre a crise dos mísseis em Cuba[4]. Mas foi decepcionado quando seguido ao elogio acrescentou: “Roberto, é que gosto mesmo de admirar. Além do que, é mais fácil admirar o próximo do que amá-lo.”
Assim termina o terceiro capítulo desta obra prima: A lanterna na POPA, que contaremos resumidamente neste Blog, poderemos comparar com o momento atual do país, chegarmos a conclusão de que a história é cíclica, e evolui somente quando nossos líderes vencem a inércia da ignorância sistêmica coletiva.
Faça a prosperidade acontecer!
[1] Eugênio Gudin Filho foi um economista liberal, ministro da Fazenda.
[2] Foi o padrão monetário do Brasil de 1942 a 1967, de 1970 a 1986 e de 1990 a 1993.Sua adoção se deu pela primeira vez em 1942, durante o Estado Novo, na primeira mudança de padrão monetário no país, com o propósito de uniformizar o dinheiro em circulação. Um cruzeiro equivalia a mil réis. O Cruzeiro passou por uma reforma monetária no governo Castelo Branco, sendo temporariamente substituído pelo cruzeiro novo. A moeda voltou a ser substituída pela equipe do presidente José Sarney, com o Plano Cruzado; o Cruzeiro voltou a vigorar no governo Collor e foi definitivamente substituído pelo cruzeiro real em 1993.
[3] Juscelino Kubitschek de Oliveira, também conhecido pelas suas iniciais JK foi um médico, oficial da Polícia Militar mineira e político brasileiro que ocupou a Presidência da República entre 1956 e 1961.
[4] Crise dos mísseis de Cuba foi um confronto de 13 dias (16 a 28 outubro de 1962) entre os Estados Unidos e a União Soviética relacionado com a implantação de mísseis balísticos soviéticos em Cuba. Além de ter sido televisionada em todo o mundo, foi o mais próximo que se chegou ao início de uma guerra nuclear em grande escala durante a Guerra Fria.
Yossi Harel, Administrador de Empresas, Pós-Graduado em Finanças Corporativas pela UNICAMP, Gestão Empresarial e Gestão de Recursos Humanos pela FGV e Gestão com Responsabilidade Social pela USP