O BUTANTÃ DA RUA LARGA

“São cobras, mas fingem que são minhocas.”

Guimarães Rosa

Neste Blog estamos estudando e comentando o livro A LANTERNA NA POPA deste gênio da economia brasileira: Roberto Campos.

A LANTERNA NA POPA conta a história dos bastidores do poder. No livro, Roberto Campos passa a visão das decisões que seriam tomadas, e para onde o Brasil ia se direcionando.

No capítulo “O Butantã da Rua Larga”, Roberto conta o momento que passou no concurso Itamaraty como sétimo colocado, em dezembro de 1939. Ele estava habituado a conseguir a primeira classificação nos cursos do seminário, então sentiu-se mentalmente humilhado com sua posição. Tendo feito o concurso em dezembro de 1939, só foi nomeado em 31 de março para o ministério das Relações Exteriores, chefiado por Oswaldo Aranha[1], e tomou posse em 1 de Abril de 1939. Segundo ele, com uma certa frustração, pois neste intervalo, num último lance de paternalismo antes que a exigência de concurso se tornasse absolutamente imperativa, Getúlio Vargas nomeou, sem concurso, cerca de 13 novos diplomatas, alguns deles auxiliares de carreira e outros meros apadrinhados políticos.

Este também, parece ser um problema atual em preenchimento de vagas para cargos públicos. Até hoje no Brasil, não há transparência na divulgação de quem ocupa esses postos, o número é exagerado e faltam critérios de competência para o preenchimento. Permitindo desta forma, profissionais fantasmas que bancam políticos corruptos, e serviços prestados ineficientes aos cidadãos do país. Um assunto que não se resolve desde a década de 30.

Desta forma, Roberto Campos havia completado a transição da rua da Relação para a rua Larga. O Itamaraty, situado na época na Avenida Marechal Floriano (a antiga rua Larga de São Joaquim), era apelidada de Butantã da Rua Larga.

Pouco depois que ele ingressou, tornou-se secretário-geral o embaixador Mauricio Nabuco[2], filho do grande Joaquim Nabuco[3].

Era um homem de alto padrão moral, mas não herdara o brilho do pai. Revelava grande interesse pela modernização do serviço público e foi autor de um famoso relatório, o da Comissão Mista de Reforma Econômico-Financeira, criada por Vargas, sob a direção do então ministro da Fazenda, Arthur de Souza Costa[4]. O documento, de que já haviam sido impresso dois mil exemplares, foi vetado e destruído, pois implicaria aumento de despesas, excitando o ânimo de gastança da administração federal. Mas várias de suas ideias, sobre o sistema de carreira eram pioneiras e seriam depois utilizadas, Nabuco era, como ele costumava dizer, um perfeccionista supérfluo.

Segundo Roberto Campos, ele era um homem bom com esquisitas originalidades de pensamentos. Uma de suas teorias era de que a desgraça fundamental do Brasil (e também da Austrália) era a pluralidade de bitolas ferroviárias. Unificar as bitolas seria um pré-requisito do progresso. Mais bizarra ainda era a teoria de Nabuco sobre a superioridade dos países que bebem fermentados sobre os que bebem destilados. Os países imperiais, dizia ele, são os que bebem vinho: a antiga Roma, França, Portugal e Espanha, por exemplo. Os alemães, cervejeiros, nunca construíram um império.

Um dos seus ofícios mais pitorescos, conta Campos, escrito quando embaixador em Washington, foi o comunicado ao Itamaraty sobre a cerimônia inaugural de Truman[5], em 1949. Relatava ter comparecido à Casa Branca, bem agasalhado e munido de sanduiches, prevendo uma cerimônia prolongada. Cautelas semelhantes haviam sido tomadas pelo embaixador inglês, porém não pelo hindu, imprevidente. Nabuco concluía que, a Índia ainda não estava preparada para a independência política.

Assim termina o segundo capítulo desta obra prima: A lanterna na POPA, que contaremos resumidamente neste Blog, poderemos comparar com o momento atual do país, chegarmos a conclusão de que a história é cíclica, e evolui somente quando nossos líderes vencem a inércia da ignorância sistêmica coletiva.

Faça a prosperidade acontecer!

 

[1] Político, diplomata e advogado brasileiro, que ganhou destaque nacional em 1930 sob o governo Getulio Vargas. Por esforços na situação da Palestina da época, foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz de 1948.

[2] Diplomata, historiador e político, defensor de causas monarquistas e abolicionistas.

[3] Político, diplomata, historiador, jurista, orador e jornalista brasileiro. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

[4] Ministro da Fazenda no Governo Vargas, entre 1934 3 1945.

[5] Harry S. Truman foi o trigésimo terceiro presidente dos Estados Unidos. Foi sucessor de Roosevelt após sua morte em 1945. Em sua presidência, os EUA terminaram a Segunda Guerra Mundial; a tensão com a União Soviética cresceu após o conflito, iniciando a Guerra Fria.

 

Yossi Harel, Administrador de Empresas, Pós-Graduado em Finanças Corporativas pela UNICAMP, Gestão Empresarial e Gestão de Recursos Humanos pela FGV e Gestão com Responsabilidade Social pela USP

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