A DIVISÃO DE “SECOS E MOLHADOS”

“Hitler é um Napoleão que fala alemão.”

Roberto Campos

Neste Blog estamos estudando e comentando o livro A LANTERNA NA POPA deste gênio da economia brasileira: Roberto Campos.

A LANTERNA NA POPA conta a história dos bastidores do poder. Roberto Campos nos passa a visão das decisões que iam sendo tomadas, e para onde o Brasil ia se direcionando.

Neste capítulo: A Divisão de “Secos e Molhados” ele conta os bastidores da política brasileira na Segunda Guerra Mundial, e os acordos que iam se desenrolando ao longo da guerra entre o Brasil e os EUA.

Ao regressar ao Itamaraty, depois de passar um tempo na área de criptografia, Roberto Campos tinha a esperança de ser finalmente transferido para uma das divisões mais nobres e condizentes com o seu treinamento humanístico. Ele foi novamente colocado a uma divisão desprestigiosa – a Divisão Comercial – então apelidada de secos e molhados. A tarefa era importante, porém, não interessante. Consistia basicamente na supervisão de atividades de comércio exterior, principalmente no tocante a quotas e licenças de importação e exportação, tornadas necessárias pelo início da guerra. Mas tarde o trabalho se intensificaria, quando o Brasil rompeu relações com os países do Eixo[1], em 28 de janeiro de 1942.

Segundo Campos, os acontecimentos se precipitaram após a declaração de guerra dos Estados Unidos e Japão, em seguida ao ataque a Pearl Harbour, em 7 de dezembro de 1941. O conflito se alastrava já que, Alemanha e Itália, acompanhando o Japão, declararam guerra aos Estados Unidos.

Em 15 de janeiro de 1942, realizou-se no Rio de Janeiro a III Reunião dos Chanceleres das Repúblicas Americanas, na qual Roosevelt[2] esperava que fosse aprovado o rompimento de relações com os países do Eixo. Do encontro resultou apenas uma recomendação, dado que a Argentina e o Chile se opuseram à medida. Em 28 de janeiro, coincidindo com o encerramento da conferência. Vargas determinou o rompimento das relações diplomáticas com a Alemanha, Itália e Japão. A declaração de guerra, entretanto, só viria mais tarde, em 31 de agosto de 1942, após o torpedeamento de vários navios brasileiros.

A tarefa de Oswaldo Aranha tinha sido de dificuldade heroica, em virtude das ambiguidades de Getúlio, cuja posição oscilava em função das vicissitudes militares. Na fase inicial do conflito, aparentava simpatia pelo Eixo, falando criticamente nos “novos valores da época” e nos “liberalismos imprevidentes”. Somente após a entrada dos Estados Unidos na guerra, é que Aranha conseguiu persuadi-lo das vantagens do alinhamento com as democracias, cujos valores éticos passaram a ter o confortável suporte do poderio industrial americano.

Nesta época, a carga de trabalho do Roberto Campos se tornou intensa, de vez que a Divisão de Secos e Molhados ficou encarregada de operacionalizar o bloqueio do comércio com os países do Eixo, cooperando estreitamente com as embaixadas norte-americana e inglesa na observância de uma “lista negra” contra empresas que transacionassem com a Alemanha, Itália e Japão. Era também intenso o trabalho de obter quotas de importação, dos Estados Unidos, de produtos essenciais, para atender ao abastecimento interno.

A grande barganha de Vargas com o governo americano se centrava principalmente em dois pontos: a implantação da siderurgia e o reequipamento das Forças Armadas. Este último objetivo foi alcançado com a participação brasileira no Lend Lease, um acordo assinado em 3 de março de 1942, até um valor de US$ 200 milhões, dos quais pagaríamos apenas 35%, em cinco anos.

Mas o projeto brasileiro mais importante da época, que viria ocupar bastante as atenções de Campos no Itamaraty, era o projeto de construção da usina de Volta Redonda. Fora aprovado um acordo de agosto de 1940, pelo qual os Estados Unidos asseguravam um crédito de 20 milhões de dólares do Eximbank[3], para instalação da siderúrgica.

A aprovação pelos Estados Unidos do projeto de implantação da siderúrgica, resultou em parte de um jogo de influências. Dizia-se que o fator detonador da concordância de Washington em financiar, através do Eximbank, o projeto da usina teria sido um discurso talvez deliberadamente ambíguo de Getulio Vargas, proferido a bordo do encouraçado Minas Gerais, em 11 de junho de 1940.

Mas voltando à Divisão Comercial, ou seja, a de secos e molhados. O diretor da Divisão era o então cônsul geral Mario Moreira da Silva, progenitor de Marcilio Marques Moreira, que viria a ser depois embaixador em Washington e ministro da Economia e Planejamento (1991/92). O chefe imediato de Campos era o Nivaldo Telles Carneiro, primeiro secretário.

Nessa época era moda no Itamaraty enxergar-se no totalitarismo de direita a onda do futuro. Campos era considerado, por alguns, um seguidor das democracias decadentes.

Alguns anos mais tarde, a moda passou a ser o totalitarismo de esquerda. Desta vez, sob a capa das democracias populares. Campos assistiu à transformação dos integralistas em paladinos das esquerdas. E nadando contra a corrente, passou a ser acusado de conservador e reacionário.

Assim termina o quinto capítulo desta obra prima: A lanterna na POPA, que contaremos resumidamente neste Blog, poderemos comparar com o momento atual do país, chegarmos a conclusão de que a história é cíclica, e evolui somente quando nossos líderes vencem a inércia da ignorância sistêmica coletiva.

Faça a prosperidade acontecer!

 

[1] Os três principais parceiros da aliança do Eixo eram a Alemanha, a Itália e o Japão. Estes parceiros tinham dois interesses em comum: a expansão territorial e a criação de impérios com base na conquista militar e na derrubada da ordem internacional do período após a Primeira Guerra Mundial.

[2] Franklin Delano Roosevelt foi um advogado e político norte-americano. Membro do Partido Democrata, foi eleito para quatro mandatos presidenciais, sendo o presidente que ficou mais tempo no cargo, e tornou-se também uma figura central dos eventos históricos mundiais da metade do século XX.

[3] O Export-Import Bank of the United States (Eximbank) é a agência de créditos oficial do governo federal estado-unidense. Ela funciona relativa autonomia do governo ainda que vinculada ao executivo. Foi estabelecida pelo congresso a 2 de fevereiro de 1934 com o intuito de financiar e garantir compras de mercadorias estado-unidense para clientes incapazes ou não-desejosos de aceitar os riscos do crédito numa época em que os investimentos privados se retraíam.

 

Yossi Harel, Administrador de Empresas, Pós-Graduado em Finanças Corporativas pela UNICAMP, Gestão Empresarial e Gestão de Recursos Humanos pela FGV e Gestão com Responsabilidade Social pela USP

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